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Um dia eu dançarei com os pessegueiros do Kurosawa
Era uma vez um dia qualquer da minha infância em que eu estava comendo pêssegos. Pêssego em versão original, não a compota. A fruta mesmo, com casca meio aveludada, meio amassada quando a polpa já estivesse madura. Como é de conhecimento de todos vocês, humanos saudáveis criados em contato com a natureza, no miolo tem um caroço. Não é uma sementinha como a da uva ou uma porção intrometida como aquele fillete no meio da maçã. O caroço do pêssego, rugoso e rígido, é grande, além de ser pontiagudo nas extremidades. Pois não me perguntem como, muito menos por que, mas naquele dia citado no início desta reminiscência eu engoli um caroço de pêssego. Desde então, a cada manhã eu espero ver um ramo ou um broto intumescido se esgueirando pelas minhas narinas em busca de luz.
Quem viu o imperdível "Sonhos", do Kurosawa, entende a razão de eu querer me juntar aos pessegueiros na dança melancólica que os espíritos das árvores protagonizam. Se não faz sentido esta derradeira frase, vá ver o filme.
(Tudo bem que a imagem no youtube é um coco, mas aqui dá pra se ter uma idéia do que o Kurosawa fazia.)
Escrito por Cacto às 09h54
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Fogaça toma sol nos molhes de Rio Grande vestindo fardão de imortal enquanto uma guria me chama de grosso (ou como misturar tudo em um único título)
==>Sempre achei que os comentários de leitores sobre fotos ou textos publicados na ZH eram fruto de algum rompante do público. O cara gostava de uma imagem, escrevia o elogio e mandava para o jornal. O mesmo valendo para os textos... e aí, se caísse na graça de algum editor, acabava tendo seu elogio publicado. Pois dia desses uma guria do jornal me telefonou perguntando se estava tudo bem com minha assinatura, já que havia pouco eu reclamei de problemas na entrega. Aproveitando a ligação, ela perguntou o que tinha me chamado a atenção na edição daquele dia. Como eu não havia lido atentamente o jornal ainda, a primeira coisa que lembrei foi a foto de uns lobos-marinhos refestelados nos molhes de Rio Grande. A imagem era bacana mesmo. Pois dias depois me liga outra fulaninha perguntando se eu não queria dar uma declaração sobre a foto que, dias antes, eu destaquei, aí minha fala seria publicada, aí meu nome ia junto, aí... Agradeci, educadamente, mas recusei a oferta. Acho que a mocinha foi pega de surpresa. "O senhor não quer que sua declaração seja publicada?" Isso mesmo, não queria. "Mas por quê?" Ora, o que eu poderia dizer pra ela? Tentei argumentar qualquer coisa, que eu não estava a fim, que eu não pretendia ver meu nome no jornal, que... Mas não adiantou. Nada convenceu a garota. Talvez ela não compreenda por que raios um mal humorado não quer publicar seu nome em ZH. Pois no jornal de domingo saiu novamente a fotinho dos bichos lagarteando em Rio Grande, lá na base da página 2, acompanhada de declarações de duas leitoras. E eu respirei aliviado em perceber que meu nome não constava do material.
==>Sem muito entusiasmo, leio uma que outra notícia referente à Academia Brasileira de Letras (ABL). Talvez o suficiente para não ficar totalmente alheio aos agitos literários dos imortais. Pois a cadeira que pertencia à Zélia Gattai tem novo ocupante: o jornalista Luiz Paulo Horta. E na última frase da notícia, descubro algo até então inédito para mim: o acadêmico recebe R$ 15 mil mensais e um acréscimo de R$ 1,5 mil por presença a cada reunião semanal. Com tudo isso, juro que eu não reclamaria da temperatura do chá. Até vestiria o fardão. Oh, se vestia...
==>E o Fogaça está em primeiro lugar... Fiquei meio desolado quando vi este resultado nas pesquisas para a corrida rumo à prefeitura de Porto Alegre. Mas ainda tenho esperanças. Não faz muito tempo que as pesquisas revelaram que 30% da população desconhecia o prefeito da cidade.
==>Depois da aula, faminto, cansado e com o nariz congestionado, rumei ao ponto de táxi. Civilizado que - tento - ser, parei no espaço que se deve parar a fim de esperar o carro. O veículo chegou e demorei um instante para embarcar, pois me despedia de um colega. Quando fui abrir a porta da frente, uma guria já estava entrando na outra. Mais atônito do que cavalheiro, sussurrei: "E a fila?". Ela me encarou como se fosse a pessoa mais correta, convicta e ultrajada do mundo e proclamou: "Grosso!". Antes de responder qualquer coisa, eu já estava entrando no carro seguinte... É preciso ter energia pra ser grosso.
Escrito por Cacto às 03h41
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Meu personal tem bariguinha, e isso é comovente
Vocês devem estar lembrados, meus 17 leitores persistentes e longevos, que em novembro de 2006 o Mal chegou perto de mim. Foi quando a primeira trombeta do apocalipse soou e eu fui levado para um tanque fétido onde quase transbordava a versão contemporânea do enxofre (relembre em http://cacto.zip.net/arch2006-11-05_2006-11-11.html). O fato é que eu sobrevivi. Pois agora, passados quase dois anos, a Besta voltou a rondar minha vida. Atemorizando os dias deste mundo de existência finita, a segunda trombeta do apocalipse soou. Aham! E a verdade mais lancinante e crua é que nestes dias presentes, antes mesmo que um chinês se eleja presidente dos Estados Unidos, antes mesmo que seja confirmado que há algo de podre no Palácio Piratini, antes mesmo que o Dantas diga tudo o que sabe e acabe com o Brasil, antes disso tudo um rapaz sorridente, querido e simpático passou a se pronunciar no meu porteiro eletrônico todas terças e quintas.
Com uma força e uma pressa súbitas, quando os relógios ainda distam pouco tempo da aurora, ele se anuncia como se trouxesse alegrias, prosperidade, fortuna, presságios positivos, saúde. Ele chega tal qual um emissário do Bem portando boas novas em seu alforje. Ele entra no meu lar e faz eu me espichar até o limite da tortura, como se meus tendões fossem romper na velocidade de uma crina que se solta do arco do violino. Ele toma conta da minha sala e me joga sentado no chão, empurrando meu dorso em direção aos pés, na tentativa de esfacelar a liga de minhas vértebras. Não satisfeito, o rapaz sorridente me entrega pequenas hastes metálicas com uma circunferência cravada em cada extremidade e me exige movimentos repetidos e sincronizados, sem dar a mínima atenção para o suplício de minh'alma. Ao terminar esta seqüência, ainda me elogia. Sim, o facínora me elogia... Sugere que minha musculatura é boa - será que o torturador cogita edulcorar suas ações com galanteios? - e que meu alongamento - eufemismo para rompimento - das costas é muito bom. Insatisfeito com o porte dos flagelos impostos, me tira de casa e me leva a uma pista de adestramento de escravos. Enlaça meu peito com uma cinta negra que sustenta um aparelho que emite sinais sonoros quando meus batimentos cardíacos estão muito baixos ou acentuados demais. Esse artefato se comunica com um bracelete fixado em meu pulso. Ele tenta explicar para que serve, mas de nada adianta. Sei que se trata de um localizador de fugitivos. O rapaz sempre saberá onde estou e onde estarei.
Ao final da tortura, ao final da sevícia, quando mais uma etapa do apocalipse se cumpriu, curiosamente abraço o emissário do Mal e agradeço. Ele se apoderou de minha consciência, ele me faz pensar de maneira inversa. Porém, neste momento em que escrevo, neste acesso súbito de fugaz sanidade, neste curto lampejo de lucidez consigo lembrar o que vem se passado nas manhãs de terças e quintas. Mas a verdade é uma só: ele se apoderou de tal forma da minha razão que me faz crer que todo o flagelo é positivo, que tudo o que ele faz é para o meu bem.
Há um dado curioso. O que me deixa comovido, profundamente comovido mesmo, é que meu personal (jamais pensei que diria isso: "meu personal!") tem uma barriguinha. Sim, todo mundo tem barriga, mas vocês entenderam o que eu pretendi dizer... No seu abdômen, nada de gominhos ou carência de gordura. Nada de frisos! Ele tem uma barriguinha. Pequena, simpática, mas ela está lá, visível. E isso é no mínimo reconfortante. Se um personal saudável e sorridente nutre uma pacata e diminuta barriguinha, por que eu, reles vítima do apocalipse, não poderei dispor de uma também?
E com licença que agora preciso ir. Meu personal pediu que eu usasse um abrigo em dias frios. Como não disponho deste tipo de fantasia, vou às compras. Melhor não contrariá-lo.
Escrito por Cacto às 12h54
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Formatura Jornalismo 2008/1 - Famecos
(No sábado, ocorreu a formatura dos alunos de Jornalismo da PUCRS/Famecos e eu era o paraninfo. Foi uma noite muito bacana. Fiquei feliz, fiquei tenso, fiquei emocionado. Algumas pessoas pediram que eu disponibilizasse meu discurso. Então aqui vai ele...)
Nossa existência é pautada, em grande parte, por ritos. Habitantes de países onde o frio impera saúdam a primavera e sua promessa de dias mais amenos com festas coloridas e alegres. O nascimento e a morte inspiram rituais tão necessários para que possamos dimensionar a vida que surge e para entender a que se extingue. E isso me lembra o Caetano Veloso… Há alguns anos, quando eu tinha a idade de vocês e os shows ainda ocorriam no Gigantinho, o irmão da Bethânia disse que algumas pessoas homenageiam seus mortos colocando retratos nas paredes. Ele, no entanto, compunha e cantava para se lembrar das pessoas que lhe são queridas.
Cada povo estabelece seus ritos, cada família perpetua seus costumes e cada pessoa assume ou não a tradição, o simbolismo. A universidade, talvez no seu momento mais solene e importante que se repete semestralmente, organiza este rito de formatura cheio de sentidos e expectativas. Vocês, eu e meus colegas protagonizamos esta tradição, vestindo estes trajes tão singulares. Os familiares de vocês, os amigos, todos vivem e renovam aqui o rito da colação de grau, como se um único segundo, o instante em que o nome de cada um de vocês foi pronunciado tivesse a força de oficializar: pronto! A partir de agora, vocês são jornalistas.
Por tudo isso, pela força da ancestralidade, pelo vigor do simbolismo que se vive aqui, eu agradeço este convite e esta homenagem. Sou um professor que não dissocia o ensino e a aprendizagem de uma relação pautada pelo humanismo, pelo afeto, pela troca, pela cumplicidade. E se cada vez mais tenho incertezas, vocês me dão pelo menos uma certeza: acompanhá-los nestes últimos anos foi algo importante e frutífero, que ecoou na vida de vocês.
Este tempo que se encerra agora pautou-se por um tema que nos une: o jornalismo. Portanto, é inevitável que ele surja novamente aqui. Não se trata de uma aula, afinal, chega de aulas, já foram muitas – pelo menos por enquanto. Quero falar de questões que se relacionam a uma certa noção de jornalismo e de como eu cheguei a este universo que compartilhamos.
Talvez um roteiro oportuno a seguir seja a mensagem que escrevi para vocês e que se encontra no convite da formatura. Eu não sabia muito bem o que dizer, mas com o prazo estourando, sentado num café, esbocei num guardanapo o seguinte texto, que ditei ao telefone para um dos integrantes da comissão de formatura:
“Eu acredito – ainda – no jornalismo. Eu acredito em um jornalismo que não pretende ser a verdade, mas se empenha e tem escrúpulos para contar uma verdade. Eu acredito na força que as palavras têm para representar o mundo de maneira mais humanizadora. Eu acredito num jornalismo que defende a vida e o respeito entre as pessoas. Também acredito na força de um detalhe e no poder transformador do jornalismo. Eu acredito, sobretudo, em vocês”.
Quando vi o convite, percebi que o texto revela muito de como eu gostaria que o jornalismo fosse. Neste mundo tão caótico, tão apressado, tão injusto e preconceituoso, nesta sociedade em que governos e seus comparsas assumem condutas criminosas, neste sistema onde interesses econômicos se sobrepõem a questões humanitárias, neste país onde a mídia é tão concentrada na mão de poucos e com freqüência derrapa na ética e na qualidade, mesmo assim, e por tudo isso, eu ainda acredito no jornalismo.
A minha crença no jornalismo começou a se esboçar intuitivamente quando eu ainda era criança e sequer conseguia dimensionar a complexidade da profissão que futuramente escolheria. Talvez minhas primeiras reportagens, meus primeiros registros do mundo, dos acontecimentos, do tempo presente eu tenha feito lá pelos meus 7 anos, ou algo próximo disso. Naquela época, havia na minha casa alguns tacos de parquê utilizados como suporte para pintura artesanal. Eu era fascinado por aquelas peças de madeira que transformava em pontes, edifícios, trens e, sobretudo, reportagens. Com caneta, eu escrevia um monte de coisas nos tacos. Fatos ocorridos, o que eu achava sobre certas coisas, a história da minha família... A estratégia que eu adotei consistia em espalhar os relatos por vários lugares: no porão, na gaveta do criado-mudo do meu vô, no fundo do roupeiro... Naqueles anos 70, eu tinha certeza que o mundo acabaria, que alguma bomba dos soviéticos ou dos americanos encerraria a vida no planeta. Os parquês escritos, aqueles rudimentos de reportagem, eram uma tentativa de preservar a minha história e a do mundo. Tempos depois, assim como vocês, acabei virando jornalista. Pena que os parquês se perderam nos desvãos do tempo.
Esse mesmo tempo me mostrou que o jornalismo é muito mais do que um mero registro. O que fazemos trata-se de uma representação do mundo, uma leitura do real sujeita a toda ordem de influência e pressão. O produto de nosso trabalho não é “a” verdade, mas “uma” verdade possível. Porém a minha maior descoberta foi perceber o papel que o jornalismo desempenha nas sociedades. Muito mais do que um texto ou uma imagem que relatam um acontecimento, o jornalismo é um complexo sistema que incide substancialmente nas nossas vidas. O jornalismo tem a capacidade de pautar grande parte daquilo que sabemos do mundo e, sobretudo, a maneira como sabemos – o que não é pouca coisa.
Por tudo isso, pelo papel que o jornalismo e suas diversas configurações ocupam em nossa vida, pela maneira como a mídia, num sentindo mais amplo, opera subjetivações na forma como nos apropriamos do mundo, é por tudo isso que eu deposito em vocês uma crença. Eu espero que da consciência e das narrativas provenientes de vocês surja uma prática jornalística comprometida com um mundo melhor, mais justo, mais ético, mais solidário. Refuto totalmente uma eventual alegação de que estou sendo ingênuo ao professar minha fé na capacidade de vocês humanizarem o jornalismo. Se pareço, mais do que ingênuo, radical ao conclamá-los para a humanização do jornalismo, é porque o nosso tempo, o nosso mundo requerem ações enfáticas em prol de uma existência coletiva mais decente, mais digna.
Eu espero que o trabalho de vocês, nas mais distintas configurações de mídias, suportes e formatos, estabeleça uma necessária diversidade de olhares, pois o mundo não pode ser pautado apenas por lógicas hegemônicas e restritivas. Eu espero, sobretudo, que vocês se comprometam na defesa intransigente da vida, do respeito e da dignidade. É por isso que na mensagem registrada no convite eu encerrava dizendo que eu acredito, sobretudo, em vocês.
Eu também acredito que vocês saem desta universidade transformados. Ao afirmar isso, não quero simplesmente alardear virtudes da Famecos. Além do conhecimento que vocês construíram aqui nesta casa, além da formação específica para atuarem profissionalmente, afirmo que vocês saem diferentes porque estes costumam ser anos latentes de significados e mudanças. Com 38 anos recém feitos, e convivendo diariamente com alunos há 14 anos, vejo que os 8 semestres que passei na universidade, assim como a permanência de vocês na Famecos, constituem um tempo de maturação, de descoberta, de colheita.
Em vocês, vejo a mim e meus colegas de faculdade. Éramos tão inseguros, por mais que compartilhássemos uma certa onipotência ou uma presunção de que sabíamos das coisas. Mas, mesmo assim, nós nos ajudamos e nos construímos mutuamente, talvez sem perceber, como se houvesse um acordo tácito em nome do amadurecimento. Cada um com sua fragilidade, seus medos, suas muitas dúvidas, sua prepotência de adolescente, mas isso não impediu que um fosse referência para o outro, atalho para descobertas, garantia de revelação, terapeuta de boteco, cúmplice na madrugada.
Quando começou a convivência das aulas, despontaram as descobertas. Música, cinema, bebidas, shows, livros, afetos, sentimentos, traições, amores, política, bobagem, sacanagem, teatro, Feira do Livro, restaurantes, fins de semana na praia, teorias, aulas, consciência, preconceito, alienação, jornalismo, jornalistas legais, jornais ridículos, produção de vídeo, festas... Nós brigávamos, ríamos, discutíamos, bebíamos, planejávamos, sonhávamos.
Tempos depois, eu jantava na casa de um colega e ele deu uma boa definição para nossa faculdade: ela foi um útero. Acho que sim, um útero. Mas um útero sem o peso da maternidade, porque psiquiatra é muito caro. Um útero-usina, um útero-incubadora. E se algo parecido se passou aqui nos últimos anos, não são apenas vocês que saem diferentes. Nós, professores e funcionários, permanecemos, mas tenham certeza que tão transformados quanto vocês, por obra de vocês. A vida é processo, a vida é vertigem, e vocês são responsáveis pela vital tensão que provoca e dá sentido a tudo o que fazemos.
Se até agora falei de jornalismo e da vivência na faculdade, antes de encerrar quero ousar cometer alguns conselhos. Se quando comecei a lecionar pouquíssimos anos me separavam dos alunos, hoje arrisco considerar que o tempo que há entre nós pode ter me dado um pouco de experiência que humildemente, e amorosamente, gostaria de dividir com vocês.
Não se levem muito a sério. Pessoas que se levam a sério demais e que não riem de si são muito chatas. Isso não quer dizer desleixo consigo mesmo. Falo de leveza, de se viver a vida em um tom ameno, sem prepotência, sem arrogância, sem onipotência.
Aprendam a perdoar. Um amigo, um familiar, um colega. Rancor e mágoa são péssimas companhias. É difícil perdoar, às vezes isso requer tempo, muito tempo, mas não tenham dúvida que a vida fica mais leve quado se consegue perdoar.
Sejam solidários. Sejam éticos. Abusem da sensiblidade. Reconheçam os limites. Ousem ser felizes. Não temam ter coragem. E antes que isso vire um manual fajuto de auto-ajuda, paro por aqui, contando uma historinha familiar.
Em maio minha vó completou 93 anos. Eu me criei ouvindo ela dizer: Deus te abençoe. Sempre. Na hora de dar o beijo de despedida, quando eu viajava, antes de desligar o telefone. Deus te abençoe. Não tenho a mesma fé que ela orgulhosamente construiu para si. Não tenho muita certeza da fisionomia deste Deus que ela crê. Mas não precisaria. Com o tempo, esse “Deus te abençoe” adquiriu um conjunto de novos sentidos. Eu tenho certeza que quando minha vó pronunciava “Deus te abençoe, meu filho”, ela queria dizer: eu te amo. Eu te amo e quero que tudo corra bem contigo. Eu te desejo uma vida boa, um futuro tranqüilo, uma vida feliz. Deus te abençoe! Eu te amo e fico feliz com a tua felicidade. Eu te amo e sempre estarei te acompanhando.
Neste momento, a única coisa que me ocorre dizer é: Deus abençoe vocês.
Vocês agora ganham o mundo, e nós ganhamos a saudade.
Obrigado. (Vitor Necchi)
Escrito por Cacto às 12h39
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Do francês casse-tête, literalmente "quebra-cabeça"
Não sei se foi o frio - cactos preferem o calor. Talvez o excesso de trabalho, as pilhas de textos para corrigir. Um certo desânimo, por que não? Um bissexto questionamento sobre a validade de manter este blog. Seja lá o que for, o fato é que faz um tempinho que não apareço por aqui. Diariamente pensava em voltar, mas havia outras prioridades. Pois o frio aumentou - mesmo que o Estado esteja pegando fogo. E deve doer muito receber uma porrada no corpo gelado. Hoje cedo, bati o dedo na mesa do escritório. Doeu muito. Muito mesmo. É sério, não é frescura. Com os olhos fechados, com a mão aninhada no meio das pernas, com o corpo curvado, permaneci alguns segundos concentrado num único e vital esforço: fazer a dor cessar.
O choque do meu dedo esfriado por uma manhã gélida contra a madeira maciça da mesa me fez lembrar do coronel Mendes, novo comandante da Brigada Militar do governo Yeda Crusius. Ele é linha dura, e se orgulha disso. Ele dá porrada. Ele é valente. Ele vai para a linha de frente. Ele é destemido. Ele não tolera desacato ou desordem, muito menos baderna. Ele não fica em gabinete. Prefere as ruas, lado a lado com a tropa, elevando o ânimo dos policiais no cumprimento do dever. Entre os deveres, está uma espécie de tolerância zero contra as ações dos movimentos sociais. E vendo as fotos de pessoas sangrando, a perturbadora dor matinal que me desconcertou se esmaeceu. Levar uma porrada de um PM insuflado pelo comandante, receber o impacto do cassetete de um policial cumpridor das ordens do coronelão da Yeda é algo que deve doer muito. Duas dores: a dor física de quem tem seu corpo golpeado numa manhã muito fria - como a de ontem - e uma dor mais subjetiva, de quem verte sangue por estar participando do protesto contra um governo que insiste em se levar a sério quando pouco ainda há para justificá-lo.
Cassetete é uma palavra originada do francês casse-tête, literalmente "quebra-cabeça". Se a explicação semântica é insuficiente, se as palavras soam frágeis, nem pensem em pedir ajuda para o Mendes. Com ele não tem moleza. Vai que para ilustrar a incompetência das palavras ele saque o instrumento de trabalho e faça uma demonstração gratuita na tua cabeça, caro leitor. Estes são tempos frios. Estes são tempos perigosos. Estes são tempos difíceis. E ter um cara como o Mendes no lugar onde ele está só tornarão estes tempos mais sombrios. Se as ruas deixam de ser espaços de expressão, se a tática do governo é barrar o avanço de qualquer passeata que ruma ao Palácio Piratini, é porque alguma coisa muito séria está acontecendo.
Escrito por Cacto às 13h27
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Nada de porão ou machado
Primeiro foi o cara que raptou uma garota e a deixou presa durante anos no porão de sua casa. No mês passado, descobriu-se que Joseph Fritzl manteve uma filha trancafiada, também no porão de sua casa, durante 24 anos. O monstro fez mais: violentou a moça e teve sete filhos com a própria filha, sendo que três também viviam confinados. E nesta quarta-feira, outra revelação proveniente da Áustria, assim como as outras duas atrocidades: um cara foi à polícia e confessou ter assassinado com golpes de machado a mulher, a filha, os pais e o sogro. Alegou que queria poupar a família da vergonha, já que ele faliu.
Não sei quanto a vocês, mas não pretendo visitar nenhum austríaco que tenha porão ou machado em casa.
Escrito por Cacto às 00h54
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Egos inflamados + carroceiro fake + dignidade
Egos inflamados não convivem na mesma fronteira Nunca prestei muita atenção no Fronteiras do Pensamento, evento que desde o ano passado pretende se converter em espaço de estudos avançados por conta dos renomados conferencistas que traz para Porto Alegre. O aparente desprezo deve-se, num primeiro momento, à minha atividade profissional. Sou um professor de várias disciplinas concentradas no turno da noite. Portanto, quase nunca consigo participar de eventos noturnos que não sejam as aulas. Quando é anunciada a realização em Porto Alegre do espetáculo de algum artista que eu aprecie, imediatamente tento descobrir em que dia da semana cairá, num reflexo movido por uma quase sempre vã esperança de poder ir. Se é no fim de semana, comemoro, embora os preços cada vez mais pornográficos dos ingressos acabem por inibir meus impulsos. O mesmo vale para o Fronteiras - o compromisso com os alunos impede qualquer possibilidade de eu participar. Com o desenrolar do megaevento, outros motivos, de natureza totalmente subjetiva, trataram de inibir cada vez mais meu entusiasmo pela função toda. Se, a princípio, era um mecanismo de preservação, já que eu não poderia mesmo participar, a cada edição ia esmaecendo alguma nesga de interesse que pudesse persistir. Os tipos de comentários que os participantes faziam após a noitada, o perfil médio do público, a comoção na mídia - não esqueçamos que há anúncios nas páginas de cobertura do evento... Tudo isso começou a me incomodar. Cansei de ver figuras rasas tecendo comentários empolgados sobre as discussões mas, paradoxalmente, o que menos discutiram foram as idéias, e sim o caráter histórico do evento, a efervescência, a produção, as pessoas... E só. Mais do que o conhecimento, a partir das conferências permanecia a moldura, o holofote. O barraco que rolou entre os egos do Gerald Thomas e do Fernando Arrabal foi mais uma evidência de que algo não faz sentido. A polêmica não emergiu das idéias, do confronto entre dois artistas, dois intelectuais, dois pensadores. A polêmica nasceu do chilique de dois caras. Sintoma de que há algo de equivocado no time escalado, no formato, na pretensão.
A bobagem do colunista travestido de carroceiro Uma das maiores bobagens que já vi na imprensa gaúcha foi a história do Paulo Sant'Ana se travestir de carroceiro. Por quê? Qual a razão? Qual a eficácia? Qual o resultado? Sinceramente, não sei. Consigo entender quando um repórter participa de uma determinada situação, acompanha um processo, testemunha uma tarefa para, depois, criar uma narrativa sobre uma certa noção de realidade. Não gosto de jornalistas que omitem sua identidade, não suporto jornalistas super-heróis que se transformam em notícia, assim como acho câmera oculta e microfone escondido recursos de duvidosa validade ética. Pois o Sant'Ana guiando uma carroça, mais do que uma tentativa de evidenciar a questão dos carroceiros, me pareceu uma aposta equivocada. Sem falar que o enfoque em torno do tema em nada mudou. Muito se fala dos transtornos no trânsito e dos - imperdoáveis - maus-tratos a que são submetidos os animais, mas pouco se evidencia as circunstâncias que impelem milhares de sujeitos a ganhar seu sustento catando lixo com carroças.Ainda o Tuio... No texto publicado pela Zero Hora sobre a morte do Tuio Becker, uma informação bem nas linhas finais dizia que ele deixava irmãs e o Wanderlei, companheiro de mais de 40 anos. Não esperava que o jornal publicasse isso no obituário. Fiquei surpreso e contente. Foi uma manifestação de respeito ao Tuio, ao seu casamento de décadas e, sobretudo, uma evidência de que algumas coisas começam a mudar, mesmo que lentamente.
Escrito por Cacto às 03h35
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Bahia + Havana = noite do último sábado
Quando um show é baseado em um disco já lançado, de antemão sabe-se do que se trata, pois há um repertório garantido para o espetáculo. Mesmo assim, sempre fico com expectativa quanto ao que ouvirei. Como o álbum da Maria Bethânia e da Omara Portuondo é curto, pouco mais que 40 minutos, certamente deveria haver mais canções na apresentação das duas neste sábado, se não seria estelionato, ainda mais com os preços cada vez mais polpudos cobrados pelos ingressos. Pois com as cortinas fechadas, a banda formada por brasileiros e cubanos - assim como a nacionalidade das cantoras - deu início às duas horas de beleza e sinais do que seria a noite. Logo em seguida, com os panos ainda cerrados, o vozeirão da baiana ressoou pelo teatro. A boca de cena foi desvelada e surgiu uma sempre vestida de branco Bethânia a cantar "Cio da terra", iluminada por tons azuis. Que imagem! Que voz! Uma celebração.
"Cio da terra"! Caramba... por onde iria a seleção? Além do disco que a dupla gravou, o programa enveredou por belezuras antigas que marcaram a carreira das duas. De Bethânia, teve "Cálix bento", "Gente humilde", "Partido alto", "Negue", "O ciúme", "Doce/A Bahia te espera", "Escandalosa", "O que será?". Omara, chamada de Billie Holiday cubana, trouxe do Buena Vista Social Club delícias como "Dos gardenias". Em cena, elas se alternavam em seqüências individuais e parcerias. A senhora de Havana, pouco afeita as canções brasileiras vertidas para o espanhol, em boa parte da noite se valeu das letras. Sua voz, em alguns momentos, saía como se fosse uma frase emendada na outra, sem parar, sem respirar... um murmúrio, um gorjeio, uma onda... parecia um mantra, um salmo, como fazem desde sempre as velhas negras pelas vielas de Cuba. Das duas, era a mais desenvolta, fora do roteiro. Estava se divertindo e feliz, mesmo que no início parecia que não agüentaria o tranco. Talvez por isso a euforia de todos quando ela ensaiou uns passinhos requebrados e sacudiu os ombros ao som dos músicos.
Bethânia dispensou as letras, menos em "O que será?", mas, mesmo assim, em determinado ponto da música ela desprezou a folha e a largou no ar, num movimento dramático, como boa parte de sua atuação. Ela não canta... ela incorpora. Tanta religiosidade, tanto misticismo, tanta Mãe Menininha pra cá e pra lá, tanto amuleto, é tanta divindade que ela mesma se tornou uma espécie de divindade. Descalça no palco, desliza na ponta dos pés, rasga o vão com movimentos repetidos do braço curvado, arruma a farta cabeleira grisalha e, antes de se retirar, toca o assoalho e fica parada, em algum transe, alguma prece, algum rito particular testemunhado pela platéia lotada e ensandecida pelo bis.
Escrito por Cacto às 18h56
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Bom dia!
Uma cafeteira fumegando, avisando que a poção está pronta. Um pão crocante. A casca estala quando é rompida, e o miolo denso resiste inteiro quando a faca espalha uma espessa camada de boa manteiga. Cantando pela casa, um disco recém descoberto da Cecilia Bartoli. Lá fora, o sol ilumina esta cidade pós-dilúvio. Só posso dizer para vocês: bom dia! Para completar, logo mais irei na casa da minha vó, que hoje completa 93 anos.
Escrito por Cacto às 10h58
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Eu transbordava de felicidade com meu amigo Tuio Becker
Quando comecei a trabalhar no Segundo Caderno, de certa forma já era bem conhecido do Tuio. Logo que entrei na Zero Hora, ainda estudante de Jornalismo, eu atuava como auxiliar de pesquisa. Nessa função, eventualmente selecionava material para subsidiar textos do então crítico de cinema do jornal. Depois que viramos colegas de editoria, por algum tempo sentei bem perto dele. Entre uma pauta e outra, era com ele que papeava. Quando eu levava chocolate, era com ele que dividia a barra, e invariavelmente o Tuio tinha que ir para o bar tomar café. Eu ia junto, claro. Quando eu tinha 24 anos – e lá já se vão quase 14 anos... –, resolvi morar sozinho. Comentei com o Tuio, e ele me disse que tinha um apartamento de um quarto para alugar no prédio dele, na rua Sarmento Leite. Acabamos virando vizinhos. O apartamento dele era bem bacana. Todo um lance de escada foi incorporado ao imóvel para maquiar o número de andares, evitando assim que fosse colocado elevador no prédio. O resultado é que, além do apartamento em si, o Tuio tinha uma bela escadaria dentro de casa. Em cada degrau havia livros, mais livros e livros. Alguns objetos de arte e mais livros. Uma escadaria de livros! Achava o máximo aquilo. Quando comecei a me ensaiar de maneira mais pretensiosa no fogão, Tuio foi um dos meus primeiros comensais, sentado à minúscula mesinha que eu tinha na cozinha, já que mobília era o que menos se encontrava na sala. Depois do almoço na Zero Hora, íamos vasculhar o balaio de livros e filmes usados da loja dos Mensageiros da Caridade, na Ipiranga.
Eu ficava meio sem jeito de perguntar sobre filmes para ele... imaginava que todo mundo fazia isso e ele deveria achar um saco. Mas como resistir? Principalmente quando se tratavam de obras antigas e clássicos. Ele sabia tudo. Sabia dos bastidores. Sabia das filmagens. Sabia contextualizar, avaliar. Sabia, sabia, sabia. Espécie de oráculo, a ele o pessoal do Segundo Caderno recorria sobre todos os assuntos, já que ele não era homem de uma arte só. Permanentemente bem humorado, mas dono de uma lingüinha ácida e oportuna. Pequenos chicotes verbais irresistíveis.
Depois que ele se aposentou do jornal, eu e uma amiga, a Rejane, editávamos uma revista online chamada Redemoinho. Resolvemos convidar o Tuio, o cara que iluminou a cinematografia de muita gente durante anos, para escrever na nossa publicação. E não é que ele aceitou? E ainda ia nos levar o texto no apartamento da Santo Antônio, onde montamos nossa redação improvisada, e nós babávamos a cada história, a cada comentário, a cada estalo se sua língua.
Eu não tenho bem certeza quando o Tuio morreu. Se em algum momento qualquer nos últimos anos, quando o Alzheimer lhe tragou para um universo de esquecimento total, ou na noite passada, quando, finalmente, ele descansou. Sempre que eu pensava nele, sempre que lia algum escrito do passado, sempre que contava uma história dele ou sobre ele, sentia um pesar, um arremedo de luto, uma pequena dor que brota quando lembramos de alguém querido que partiu. Hoje, quando soube da morte de fato do Tuio, senti uma angústia, um desconforto, uma tristeza requentada. Soube tarde demais... soube na hora em que já não era mais possível participar do velório, da despedida. Fiquei meio chocado, paralisado, olhando o relógio. Queria reverter o tempo para ainda poder me despedir. Queria reverter o tempo até uma noite qualquer na Sarmento Leite, quando eu transbordava de felicidade com meu amigo Tuio Becker.
Escrito por Cacto às 21h25
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Algumas coisas sobre fatos das últimas semanas
Quem é amigo de picareta, picareta é. Ou não?
Corrijam-me se estou sendo exagerado, mas vocês não acham meio difícil de engolir esta história de que se a criatura é amiga do cara, mesmo que ele seja um salafrário, mentor de um esquema de roubalheira geral, notório picareta, pouco importa se ele é criminoso? Se é amigo, não há nenhum problema em tomar chope com ele, mesmo que ele seja ladrão? Comparações não costumam ser boa tática, muito menos quando se refere ao próprio autor do texto, mas me intriga isso. Olho para meus amigos e, sinceramente, não tenho criminosos ao meu redor. E por quê? Porque sou seletivo. Pode ser um critério tácito, um mecanismo presumido, quase inconsciente, mas não convivo, não quero me relacionar com gente falcatrua. Se descubro algo deste teor, perco o encanto, me encolho, saio de cena. O resultado é que meus amigos não dão desfalque de R$ 40 milhões, nem estão envolvidos em delitos menores. Por isso, senhora governadora e seu entorno todo de assessores, secretários etc., não me venham com este papinho de que sou amigo dos meus amigos mesmo que eles tenham praticado algum crime e seguirei sempre ao lado deles. O mesmo vale para o senhor do Tribunal de Contas do Estado que vai se solidarizar com outro picareta do esquema do Detran na própria casa do cara e acha que não tem nada demais nisso. Ou algo existe de mais encriminador, ou essa turma precisa escolher melhor os amigos, até mesmo em razão dos comprometimentos assumidos em razão dos cargos e postos que ocupam.
Estou exagerando ou não?
1000 balões e um crânio cheios de gás hélio
O cara a essa altura deve estar morto. Se não, coitado, deve estar apavorado, já que o socorro ainda não chegou. Mas francamente: o que tinha na cabeça aquele padre que se pendurou em mil balões em total desatenção aos mínimos critérios de segurança? Na verdade, eram 1000 balões e um crânio cheios de gás hélio. Essa provável morte é um absurdo total. O que leva uma criatura despreparada a se meter numa enrascada dessas? O quê?
A fã e o fortão
A governadora da gauchada foi para os Estados Unidos. Conforme ZH, ela estava bem entusiasmada com a possibilidade de se encontrar com o governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger. Acho que será comovente. Fico feliz com esse passeio. Tomara que ela se divirta bastante. Tomara mesmo. Se ela for esperta, trará uma foto autografada para colocar na sua casa nova. Aquela comprada por R$ 700 mil logo depois que se encerrou a campanha, e parece que com o apoio do Lair Ferst, o mesmo do chope que derrubou o secretário competente e querido por todos.
Eta, turminha boa!
Os donos da mídia se reuniram
Nesta semana houve uma reunião em Brasília para discutir alterações na Lei de Imprensa e, entre outras coisas, as ações judiciais movidas contra veículos. Falaram de temas importantes pra chuchu, como cerceamento da liberdade dos veículos e autocensura dos profissionais. Participaram os donos da RBS, do Estadão, da Globo, da Folha e da Band. Pelo menos são os que eu me lembro. Não sei se esqueci algum nome... mas que todos eram donos, ah, isso eram. E é justamente isso que considero estranho. Ou sintomático.
Escrito por Cacto às 17h22
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O dia em que extraterrestres invadiram Porto Alegre
Quem já atuou ou atua em jornal sabe que a sexta-feira pode durar bem mais de 24 horas, e não há Jack Bauer que consiga reverter os ponteiros - até porque o relógio dele é digital. Quando eu trabalhava na edição da Geral, na Zero Hora, a jornada começava lá pelas 13h e nunca terminava antes da meia-noite, podendo entrar madrugada a dentro. Primeiro nos dedicávamos à edição de sábado e depois, à de domingo. Embora houvesse momentos em que os dias se sobrepunham, tantas eram as coisas a se fazer. Na verdade, rolava uma grande loucura. A edição de um jornal é um processo altamente industrial. A cada intervalo de tempo, tantas páginas precisam ser finalizadas na redação para que outros setores dêem continuidade ao processo. Por isso se corre muito, por isso o relógio é crucial, por isso os jornalistas se estressam e se escabelam - o que não é bem o meu caso, se é que me entendem, caros 17 leitores. Se não fosse assim, se não houvesse o chamado fluxo de páginas, o pessoal que faz o parque gráfico funcionar não teria como finalizar uma edição inteira ao mesmo tempo.
Quando se terminava a preparação do jornal de sábado, normalmente o que tem menor número de páginas da semana, se respirava um pouco mais. Alguns iam tomar café no bar ou engolir um sanduíche, até porque jantar é coisa de gente normal. Cinema à noite? Ha-ha-ha! De novo: HA-HA-HA! Festa na casa de amigos? Quando se chegava, ou estavam na sobremesa, ou o avançado nível de alcoolismo evidenciava que se perdeu o melhor da noite. Para quem ficava na redação, lá pelas tantas começava o festival de bobagens. Quase todos na Geral entravam numa catarse e não paravam de falar besteira, rir, contar piada, rir de novo, lembrar infâmias alheias e as próprias também. Se não fizéssemos isso, seria árduo demais aguentar o trabalho em plena noite de sexta-feira ou madrugada de sábado. Às vezes nos empolgávamos tanto com a alopração que os sisudos de outras editorias faziam shhhhhhhhhhhhhh. Mas chegava um momento em que passava a euforia e nos compenetrávamos, talvez um tanto tristes, e percebíamos que o mais sensato era ficar quieto e encerrar logo aquela função toda.
Às vezes eu saía tão cansado do jornal que não sobravam forças pra enfrentar a noite, mesmo que um festão estivesse me esperando. Se fosse pra casa, então, aí mesmo não fazia nada. Houve uma noite em que eu pretendia tomar banho, me perfumar, colocar uma roupa legal e rumar para o pecado. Tolinho... antes do banho, deitei na cama alguns segundos. Acordei um pouco antes das 8h. Se corresse, dava tempo de pegar o início da missa.
Mas voltemos à redação. Quero contar sobre a noite em que os discos voadores atacaram Porto Alegre. Eu já estava naquele momento do mau humor, pós-euforia. Nada mais me interessava, a não ser terminar a edição das duas páginas dominicais sob minha responsabilidade. O telefone tocou, atendi de maneira mecânica, mecanicamente falei alô e ouvi:
- Meu filho, tem um disco voador perto do Iguatemi.
Lembro que baixei a cabeça, apoiei a testa na mão, fechei os olhos e balbuciei:
- Como?
- Tem um disco voador perto do shopping.
Mergulhei num silêncio dramático demais, a ponto de a aflita senhora perguntar, no outro lado da linha:
- Meu filho, está me ouvindo?
Ainda por cima ela me chama de "meu filho"... Vaca! Toda gentil na hora de dar trote.
- Disco voador? - arrisquei confirmar.
- A-ham! Dois, na verdade. Ficam de um lado pra outro. Vocês precisam vir aqui.
Num derradeiro ato de polidez, pedi seu nome e disse que iríamos mandar uma equipe. E boa noite. E obrigado pela informação, minha senhora.
Voltei para minhas duas páginas. Texto pra cortar, legenda da foto pra terminar, título, destaque, linha de apoio... e o telefone tocou de novo. E eu atendi de novo. E um outro terráqueo acometido de um súbito desejo de fazer galhofa com um operário da imprensa disse pra mim:
- Cara, tem disco voador voando aqui nas bandas do Iguatemi.
Estão de sacanagem, justo comigo... Bando de babacas! Qual dos meus amigos, qual colega de jornal que saiu lá pelas cinco da tarde e agora está exercitando sua verve humorista?
- Disco voador, é? Sei...
- Cara, é sério. Tu tem que acreditar, meu...
- Sei...
- Vocês vão vir pra cá?
- É possível... é possível... vou falar com minha chefe.
Nestas horas, sempre é bom empurrar a decisão, ou pelo menos uma suposta decisão, para o chefe. Pelo menos o babaca vê que tu és um chinelo que não manda nada e pára de encher o saco.
Alguns minutos depois, outro telefonema. E mais um. E outro. Puta que pariu! Parem as máquinas! Chamem Orson Welles! Chamem a imprensa: Porto Alegre está sendo atacada por discos voadores. Que uma velha louca ligasse numa sexta-feira para o jornal dizendo que viu um disco voador, tudo bem, dava pra entender, afinal, os carentes gostam de conversar com jornalistas. Se um babaca telefonasse pra dizer a mesma coisa, ele é um imbecil. Mas se mais duas, três, quatro, cinco, seis, vejam bem, SEIS pessoas de diferentes endereços procurassem o jornal pra dizer que viram discos voadores, terráqueos, se preparem: o apocalipse se avizinha! Na boa, algo estava acontecendo. E o jornal precisava averiguar o que era.
Fui conversar com a Rosane Tremea. Ou com o Ricardinho... não estou bem certo. Talvez os meus dois chefes estivessem lá. Claro, riram da situação, mas fazer o quê? E se Porto Alegre estivesse tendo a honra, a prerrogativa de ser invadida por discos voadores? Aí, pela primeira vez na história deste planeta, intrépidos jornalistas poderiam noticiar o ocorrido. Eta, nós!
Havia um repórter de plantão. Fui até ele e disse:
- Cara, tem uns discos voadores lá no Iguatemi... vai ver o que é.
Ele deu um sorrisinho... mas entendi o que ele pensou. Em respeito aos leitores com menos de 18 anos, não reproduzirei.
- É sério, vai lá. Mais de cinco pessoas ligaram dizendo que viram disco voador perto do shopping. Não deve ser, mas vamos lá.
Claro que o "vamos" significava "vai". E hoje, quase dez anos depois, percebo que soou muito trouxa eu dizer "não deve ser...". Óbvio que não era nada. Mas e se fosse? O repórter percebeu que não era piada. Resignado, pegou o bloco, a caneta e saiu. Falei com o fotógrafo de plantão. Ele foi mais entusiasta quanto à possibilidade de flagrar os verdinhos azucrinando a gauchada. Tanto que logo pegou o equipamento e saiu em busca dos extraterrestres.
Pra terminar a história da invasão de discos voadores em Porto Alegre, vamos aos fatos. Naquela época, um dos lugares mais badalados na noite era o Dado Bier, quando o inferninho das gaúchas produzidas em série tal qual catálogo de tintura pra cabelo ainda funcionava na avenida Nilo Peçanha. Naquela noite, eles estavam usando dois holofotes, canhão de luz... sei lá como se chama aquilo. Enfim, eles projetaram os fachos para o céu e ficavam oscilando a luz de um lado pra outro. Tudo muito lindo, tudo muito festivo, tudo muito especial. E nós, jornalistas provincianos de uma cidade provinciana, todos desacostumados com a última moda dos festejos noturnos, fomos fazer uma reportagem sobre a noite em que os ETs saqueariam a capital dos gaúchos.
Acho que publicamos uma pequena foto e algumas linhas sobre o acontecido. Havia um fato. Ok, um fatinho... mas havia. Pelo menos os leitores ficaram sabendo da nova bossa das festas que agitavam a província.
Por último: sim, ok, reconheço que a história do relógio lá no início beirou a infâmia... mas quando pensei nela esbocei um pequeno sorriso feito guri que se acha esperto ao contar uma piada. Sorry.
Escrito por Cacto às 11h22
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Professor, o que é pênis?
"Professor, o que é pênis?"
O semblante sério e respeitoso do aluno me desconcertou: ele estava falando sério. Ele não sabia o que era pênis e desejava (palavra perigosa neste contexto) ouvir minha explicação. Mas há horas em que o riso, ou melhor, a gargalhada surge como única reação possível. E foi o que aconteceu... eu e toda a turma estouramos os pulmões em uma grande gargalhada na aula. A essas alturas não havia mais decoro e compostura a manter - tinha que rir mesmo da pergunta. Quando consegui articular uma única frase, ressalvei: "Ninguém mostra pra ele!". A turma renovou o estoque de risos exacerbados, ao mesmo tempo em que alguém segredou ao questionador qual era o objeto que correspondia à palavra pênis. Os tons vermelhos que se apoderaram da face morena e imberbe dele evidenciaram que sua dúvida priapesca restava morta.
Para a cena anterior fazer sentido, preciso esclarecer que o aluno desconhecedor das sinuosidades do imenso capítulo fálico da língua portuguesa era chinês. Em 2007, quase 20 universitários procedentes do país que depois de amanhã vai colonizar o mundo todo vieram estudar na PUCRS por conta de um intercâmbio. Um semestre na Faculdade de Letras, outro na Faculdade de Comunicação Social, onde leciono. Nas primeiras aulas, tinha impressão de que eles não entendiam nada do que eu dizia. Para facilitar o entendimento, eu tentava falar mais devagar, escrevia as palavras mais importantes no quadro, repetia as frases... mas algo me dizia que nem tudo era compreendido. Com o tempo, parte do grupo começou a se mostrar mais situado.
Além das dificuldades com o idioma, havia um hiato no repertório. Nomes, obras e situações que aparentemente qualquer universitário do mundo conheceria eram citados e causavam surpresa nos chineses. Numa aula sobre crítica de cinema, comentei sobre Bergman e Woody Allen - e eles nunca tinham ouvido falar. Noutra, lembrei do Frank Sinatra - jamais ouviram a voz dele, muito menos conheciam o perigo dos olhos azuis. E por aí vai. Mais do que serem provenientes de uma cultura distante da ocidental, o que conta para tanto desconhecimento, imagino, é o embargo promovido pelo governo às informações, o controle sobre o ensino e a mídia e, claro, a censura. Mas foi a pouca intimidade com a língua, quero dizer, com o idioma que renderam boas histórias nas aulas. Como o lance do pênis...
Eu falava sobre precisão nos textos jornalísticos e a necessidade de averiguarmos todas as informações. Aí contei uma história do meu tempo de Zero Hora. No lançamento do filme "Boogie Nights" (1997), do Paul Thomas Anderson, o jornal dedicou duas páginas num caderno dominical à saga do ator pornô dono de um instrumento de trabalho beeeeem avantajado. Acho que media 33 centímetros, algo assim, mas tanto faz... qualquer número próximo disso já seria impressionante - para não dizer outra coisa. O fato é que o autor de um dos textos colocou uma medida, e na matéria ao lado o outro jornalista tascou uma dimensão diferente. Uma das editoras que mandava na redação fez um longo e interessante arrazoado sobre precisão jornalística. Legal mesmo, mas pairava um ar bizarro e estranho sobre a história porque o ponto de partida daquele pequeno tratado sobre exatidão era o tamanho do pau de um ator pornô. Foi essa história que eu contei em aula e que levou o chinesinho a proferir, com toda inocência, a surpreendente pergunta: "Professor, o que é pênis?".
Escrito por Cacto às 13h39
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Já se passaram 11 anos

No meio da conversa trivial do domingo trivial após o almoço trivial, minha mãe comentou um detalhe sobre a ida dela ao cemitério, quando mais uma vez cumpriu o rito de visitar, limpar, arrumar - homenagear - o túmulo do meu vô, pai dela. Não me lembro exatamente o que foi dito a seguir. Paralisei com a constatação de que eu havia esquecido a data da morte do vô. O meu vô. O cara que cumpriu o papel de pai, de vô, de animador, de apoio, de parceiro, de porto. Sim, de porto - por mais clichê que a comparação possa ser -, daqueles totalmente seguros, onde eu podia atracar sem erro, sem dúvida. E eu esqueci o dia quando se completaram 11 anos de sua morte.
Uma das coisas que mais me incomodam é a dificuldade em se poder confiar plenamente, totalmente, incondicionalmente em alguém. Pela minha vida já passaram pessoas em quem eu pensava poder acreditar e confiar para sempre, mas em uma esquina qualquer o encanto se quebrou. Com meu vô era diferente. Hoje, neste momento em especial, percebo que ele era tão iluminado, tão especial, tão meu amigo, tão apaixonado por mim, tão feliz com a minha presença, tão atento, tão zeloso que fico tocado só de pensar nisso tudo. Mais difícil do que amar é querer bem. Meu vô era uma pessoa que queria bem as pessoas. E eu não tenho a menor dúvida e inflamo os dedos para escrever que ele me queria muiiiiito bem. Era uma entrega total, incondicional, recíproca.
Era o vô quem me entregava a mamadeira na cama, pra eu poder ficar mais tempo deitado em dias frios. Era ele quem fazia sardinha com cebola pra eu comer no início da noite. Era no café com leite forte dele que eu molhava meu pão. Ele engraxava todos os dias meus sapatos do colégio. Quando um motorista dormiu no volante, subiu na calçada e me atropelou, foi ele quem agarrou o cara pelo braço e o arrastou até a polícia. Era o vô que levava massinha (um pão meio doce que era vendido na padaria da esquina) para mim e meus amigos no intervalo da sessão dupla do cinema Miramar, nas tardes de domingo. Ele transformou pedaços de madeira em uma cidade miniatura onde eu trafegava com os carrinhos de madeira igualmente construídos por ele. Orientado por ele, eu pesquei 105 sardinhas na ponte que une as margens do rio Tramandaí. Atento ao universo particular dele, aprendi a prestar atenção na voz "colossal" do Nelson Gonçalves. Com ele aprendi que não se rouba. Aprendi sobretudo que se deve ser honesto. Convivendo com meu vô, aprendi a importância de se ser generoso e cordial. Aprendi a tomar chimarrão. Aprendi a ser amado.
Por tudo isso, foi com espanto que percebi o esquecimento da data de sua morte. Fiquei assustado com o distanciamento, com os desígnios da passagem do tempo. Como pude esquecer? Na minha frente, neste momento, neste exato momento de emoção, vejo num porta-retrato a foto que flagrou seu corpo magro assando churrasco na praia e eu, com sete anos, a olhar compenetrado a função toda. Essa foto é plena de memória. Eu sempre rondava meu vô, vivia em torno dele, queria estar com ele. Na imagem, ele está meio de lado, acomodando o espeto. Eu, de costas, baixinho, observando. Ao lado dele. Junto dele.
Em minha casa, existem vestígios do meu vô. Além da foto no porta-retrato, há a foto da parede, a foto em outro porta-retrato, e mais outra. Para muito além das imagens que brotam da emulsão, meu vô vive nas suas ferramentas de marcenaria que recolhi na casa da família e trouxe para a minha. Sobrevive na pasta de documentos, entre eles o atestado de óbito. Mas o Rosauro Necchi sobrevive, sobretudo, num sentimento muito peculiar, muito singular que me sugere cada vez mais, a cada dia, o significado e o sentido de se ter uma família, para bem longe das imperfeições e dos ranços que desfalcam esses grupos. Pensando no meu vô, percebo uma noção de continuidade, de ancestralidade. E isso, de certa forma, me justifica, me explica, me dá sentido e, por último, me acalenta. E o tempo parece menos agreste, menos árido, menos árduo, mesmo que já tenham se passado 11 anos.
Escrito por Cacto às 00h04
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Leia e passe adiante
Livro não pode ficar parado, nem revista. Ambos nasceram para ser lidos. Se ficarem no armário, mofam. Na prateleira, criam pó. Por isso a Faculdade de Comunicação Social (Famecos) da PUCRS lança no dia 24 de abril o projeto "Leia e passe adiante". A iniciativa começa durante as comemorações da Semana do Livro, mas seu caráter será permanente.
A idéia é simples. Alunos, professores, funcionários ou quem circular pela faculdade leva uma publicação, cola na capa o selo da campanha e deposita o volume numa prateleira instalada no saguão do prédio. Depois, todo o material fica à espera de um futuro leitor. Qualquer pessoa pode pegar. Qualquer pessoa também pode trazer novos livros ou revistas para dar continuidade ao processo. Vai chegar um momento em que os títulos retirados retornarão à estante, confirmando a vocação das publicações: estarem em permanente movimento. Afinal, livros e revistas foram feitos para correr mundo.
Os organizadores pretendem que se que se estabeleça um regime de autogestão, portanto, não haverá controle. A estante abrigará as mais diversas obras. Livro acadêmico, de fotos ou romance. Poesia, ensaio, conto. A revista do último mês, até mesmo a do ano passado - os consultórios médicos são a prova de que revista não fica velha.
O selo traz impressa a frase "Leia e passe adiante" e ficará disponível na própria estante, a fim de que os participantes da campanha o fixem nas publicações na hora em que entregarem o material. O desenvolvimento dessa peça, do cartaz e do folheto que divulgam a iniciativa coube ao Laboratório de Tendências, e o projeto será administrado pelo Laboratório de Eventos, ambos vinculados à Famecos. Informações sobre a campanha serão publicadas neste site.
Escrito por Cacto às 14h10
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Marlon Brando, rogai por nós!
Tá nos jornais: as empresas que querem cobrir o território gaúcho com lavouras de eucalipto, acácia e pinus, graças ao apoio irrestrito do governo do Estado, ganharam a queda de braço com os ambientalistas. Ontem, o Conselho Estadual do Meio Ambiente aprovou o chamado zoneamento florestal, que define limites (ah?) para o plantio industrial de árvores. Em nome da verdade, é bom que se diga que o documento vai implantar uma espécie de oba-oba com aroma de eucalipto. A proposta original da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) defendia que as plantas exóticas plantadas ocupassem no máximo 50% de uma propriedade. Até o mês passado, discutia-se no Conselho um limite de 30% em cada uma das 45 regiões em que foi dividido o Estado, sem teto por propriedade. Sabem qual o teor da proposta aprovada? Não há percentuais pré-determinados. Assim sendo, Stora Enso, Aracruz e VCP Celulose - as três maiores empresas interessadas na questão, donas de projetos que somam US$ 4,5 bilhões - podem plantar quantas árvores quiserem. O texto aprovado fala que cada caso terá uma avaliação específica... Desta forma, o governo garante que abusos serão coibidos. O documento que defende os interesses da governadora Yeda Crusius ainda menciona que o autor deste blog tem a cara e o corpo do Marlon Brando por ocasião das filmagem de "Um bonde chamado desejo". Interessados em conhecer meu portfolio audiovisual podem passar nas locadoras mais próximas de sua casa ou garimpar no Youtube.
Os ambientalistas alegam que a supressão dos limites libera a expansão das lavouras de árvores exóticas, o que pode causar sérios danos ao ecossistema nativo. O cultivo desenfreado alegra o raciocínio contábil da governadora, mas ameaça a sobrevivência de plantas e espécies animais em razão do elevado consumo de água por parte das árvores usadas na produção de celulose. Também reduz o espaço para circulação dos animais. Mas num Estado falido e governado de maneira arbitrária, de que valem argumentos ecológicos?
Marlon Brando, rogai por nós!
Escrito por Cacto às 12h42
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A coragem e a importância da entrevista de Mário Corso
Acompanho com interesse o que a imprensa tem publicado sobre o suicídio do garoto Vinícius Gageiro Marques, o Yoñlu, que se matou com a ajuda de internautas quando tinha 16 anos, em 26 de julho de 2006, e transmitiu seu ocaso em tempo real. Minha atenção decorre do absurdo da história e também da curiosidade em saber como a mídia lida com a cobertura de um suicídio, tema tabu e habitualmente sem espaço na cobertura jornalística. A história ganhou visibilidade quando ZH publicou uma primeira reportagem, fruto de um intenso e cuidadoso debate interno para saber se o episódio viria à tona e de que maneira. Mais do que noticiar um suicídio, a idéia era fazer um alerta: atenção, adultos, atenção, pais, vocês sabem o que se passa quando as crianças ficam horas e horas imersas na internet? É claro, a internet não é a vilã, não deve ser satanizada a priori, mas não há dúvida de que ela é o ambiente onde pessoas sacanas, amorais, criminosas e perversas agem. Isto não é papo careta, isto é o mundo real. Por mais que se fale em virtualidade etc., a internet e seus sujeitos são tão reais quanto um pedófilo que age em um apartamento mofado.
Voltando ao Vinícius. Apareceu uma outra leva de material na imprensa quando descobriu-se que o garoto deixou um legado de 60 músicas gravadas que originaram um CD com 23 faixas. Houve cobertura em ZH e nas revistas Rolling Stones, Época e Aplauso (Aliás, não entendo por que o tema foi capa da Aplauso... não vejo problema em darem espaço ao assunto, mas capa, depois que o assunto já foi amplamente noticiado? Parece-me um erro de avaliação.) Fico pensando se não há uma tendência, neste caso, a se criar um mito, um herói, algo do tipo. A morte tem o poder de relativizar feitos da vida, sublimar erros ou dar um tratamento hiperbólico para personalidades e obras. Talvez algo parecido possa estar ocorrendo... Talvez o Gabriel, futuro orientando, responda a isso, já que ele pretende construir sua monografia sobre o tema.
De tudo o que saiu na imprensa, destaco aqui a entrevista que a Eliane Brum fez com o Mário Corso, psicanalista que tratava o garoto, publicada na edição de 11 de fevereiro da revista Época. A seqüência de perguntas e repostas é surpreendente. Revela um profissional lúcido, pesaroso, humano, saudoso e, sobretudo, corajoso por se expor, afinal, ele trata na entrevista sobre um paciente que se matou. Corso aceitou falar porque queria dar amplitude a um crime cometido por meio da internet, porque pretendia fazer um alerta, porque teve valentia e lucidez para dar luz a uma história tão eivada de horror e componentes ainda desconhecidos para boa parte das pessoas. Quem quiser ler a versão expandida da entrevista, no site da Época, clique aqui.
Escrito por Cacto às 12h13
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Cada um faz o que quer com os dedos
Alguém sabe me explicar por que grande parte dos rapazes fotografados faz pose com os dedos? É, eles projetam a mão para frente, separam alguns dos dedos e esboçam uma cara que sugere "estou fazendo pose pra foto". No fundo, acho meio patético... mas e daí, né? Cada um faz o que quer com os dedos.
Escrito por Cacto às 11h34
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Apaguem a tocha!
Maravilha: a tocha olímpica teve de ser apagada duas vezes no percurso planejado por Paris em razão das manifestações contrárias ao mando chinês no Tibete. Maravilha! Fala-se muito na força do esporte em unir os povos e tal. Pois sim, Jogos Olímpicos e Copa do Mundo são, na verdade, uma mega-über-hiper-farra dos anunciantes e dos comitês organizadores. Essa praga se espalha até mesmo para as versões mais minguadas. Alguém ainda se lembra da farra de dinheiro do Pan? Alguém sabe me dizer se algo vai ser feito contra os desmandos e as falcatruas do comitê que tramou o Pan no Brasil? A agora ainda vai ter Copa do Mundo por aqui... Consigo imaginar a felicidade dos Teixeiras da vida e sua corja da CBF. Mas voltando às Olimpíadas do chinaredo: já que a tocha é algo meramente simbólico, então que seja apagada, que seja molhada! Quando tudo é uma grande palhaçada, quando o papo de paz mundial soa tão pueril e raso, quero mais é que os símbolos dimensionem um pouco da farsa.
Escrito por Cacto às 12h34
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Antonieta foi decapitada, e eu quase quase fui demitido
Li em ZH que a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz está completando 30 anos, aí me lembrei de uma reportagem sobre esse grupo de teatro que quase me rendeu uma demissão do jornal. Nunca fui demitido sem querer. Nas ocasiões em que acabei desligado de algum emprego, foi conseqüência da minha vontade de sair, mas naquele longínquo 1993 quase perdi o controle da situação.
Era um domingo de fevereiro. Na época eu trabalhava no Segundo Caderno e estava escalado para cobrir a estréia de Se não têm pão, comam bolo, espetáculo de rua que o Ó Nós Aqui Traveiz apresentou no Parque Farroupilha. A encenação mostrava a penúria na qual o povo vivia no período que antecedeu a Revolução Francesa. A intenção era evidenciar que a situação tinha paralelo com o Brasil de então.
Segunda-feira, dia da publicação do meu texto, quase que também foi a data de minha estréia no time de desempregados. O Augusto Nunes, diretor de redação de ZH na época, odiou o que escrevi. Mais do que tudo, ele detestou o tom, as evocações, as referências. Relendo o texto, confesso que não o faria da mesma forma hoje, mas gosto de saber que enfureci o Augusto por alguns momentos. Acabei não indo pra rua. Acho que, no conjunto, pesou a meu favor o restante de minha atuação no jornal. Mas foi um dia e tanto... eta se foi...
A peça era uma criação coletiva do grupo e nela atuavam Arlete Cunha, Kike Barbosa, Rogério Lauda e Sandra Possani. A Revolução Francesa - quando a rainha Maria Antonieta disse "se não têm pão, comam brioches" ao saber que o povo passava fome e acabou perdendo a cabeça na guilhotina - inspirou o tema da montagem. O espetáculo começava com a identiticação dos personagens. Juvêncio saiu do Nordeste e encontrou no Paraná a trapezista Dorvalina. O casal partiu para São Sebastião do Caí e lá conheceu Formosa e Garaldinho do Chiqueiro. Os quatro então montaram uma trupe que começou a viajar pelas metrópoles contando histórias. Como o causo de "uma tal rainha Antonieta que mora num palácio e o povo, na sarjeta".
Acho que minha quase demissão começou a ser delineada já na abertura do texto: "A tão falada modernidade não conseguiu varrer a fome do Brasil, apenas escondeu-a embaixo de pontes e viadutos. Um de seus atos foi camuflar a miséria que a Tribo de Atuadores Ói Nós Aqui Traveiz escancarou para quem assistiu ao espetáculo de rua Se não têm pão, comam bolo (...)". No meio, escrevi, sobre o andamento do espetáculo: "Os saltimbancos da Terreira, após decidirem pela morte de Antonieta, buscaram na roda formada pelo público um voluntário para desferir o golpe da guilhotina. Antes do surgimento do algoz, um dos muitos meninos de rua, que perambulam pedindo dinheiro ou pão velho, ajudou os saltimbancos a depositarem na guilhotina o real pescoço do boneco que representava Antonieta". E para quem pensasse que a decapitação encerrava a peça, um dos atuadores bradou: 'Mas a história continua. A justiça não se faz com o horror. Esse ato cruel não adianta. A miséria que existia é a mesma de hoje em dia. Liberdade, igualdade, fraternidade'. A cabeça rolou, mas o povo que era pobre, pobre continua".
Agora, mais do que a abertura do texto, o que quase pavimentou meu caminho até o Departamento Pessoal foi este trecho:"Por mais que Marx esteja distante das vitrinas ideológicas ou que o considerem démodé, a Terreira propôs que a luta de classes resiste, principalmente no porão do planeta: o Terceiro Mundo. A miséria não morreu, cada vez engorda mais com a fome de milhões de brasileiros". Escrevi mais algumas coisas... mas admito que são bobagens que não vale a pena transcrever.
Deste episódio, o que mais me marcou, além da quase demissão, foi o silenciamento de quem editou o texto. O editor é uma espécie de cargo de confiança no jornal e tão responsável pelo que se publica quanto o repórter. Mas, em ocasiões como a que descrevi aqui, o erro, ou o que os chefes supõem ser um erro, é atribuído unicamente ao repórter que, quase sempre, acaba responsabilizado. Sozinho! Isso tudo me marcou tanto que, quando virei editor e algo dava errado, eu dividia a responsabilidade com o repórter.
Escrito por Cacto às 16h22
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Eu devia ter subido o morro de novo
Ando meio nostálgico... ok, perdão pela obviedade. Recomeço: ando meio nostálgico em relação a textos antigos que escrevi quando ainda era repórter da Zero Hora. A responsabilidade é da Júlia Timm, que planejou fazer uma reportagem sobre a procissão do Morro da Cruz, em Porto Alegre. O trabalho será publicado na revista que edito com os alunos do sétimo semestre. Quando ela apresentou a pauta, logo lembrei de uma história que seguidamente aparecia nas reuniões da editoria Geral, da ZH. Um bom repórter precisaria ter feito, pelo menos, três coberturas: motim no Presídio Central, festa de Navegantes e procissão do Morro da Cruz. Naquela época eu era editor. Antes, já havia saído às pressas da redação pra ver que confusão acontecia no maior presídio gaúcho. Também já tinha me esbaldado retratando a fé que, em pleno calor de 2 de fevereiro, tira de casa milhares de pessoas que vão homenagear a padroeira de Porto Alegre. Faltava o Morro da Cruz... então percebi que era uma perfeita oportunidade para voltar à rua. Como ninguém estava muito a fim de fazer a empreitada de subir quase 2 quilômetros morro acima acompanhando os fiéis, me escalei para trabalhar na Sexta-Feira Santa. Fui, tomei um torrão, me cansei, mas no sábado que antecedeu à Pascoa de 1997 o jornal publicou um dos textos que eu mais curti fazer.
Ele começa assim: "A aparição de três anjos montados em pernas-de-pau avisa a comunidade do Morro da Cruz que a mais importante, emocionante e conhecida história do Cristianismo estava para ser encenada num pobre lugar de Porto Alegre. Como ocorre desde 1960, os moradores do morro apresentaram ontem à tarde o espetáculo A Paixão de Cristo - Procissão do Morro da Cruz". Mais adiante, escrevi: "Antes que o diretor de teatro Camilo de Lélis comece a narrar o espetáculo, os arautos angelicais abrem caminho entre o público espalhado à frente do Santuário São José do Murialdo. As crianças se maravilham com os anjos de nariz de palhaço, corpo de boneca de pano, pernas gigantes e asas de querubim". Outro trecho, que se refere ao desenvolvimento da caminhada: "As ruas se agitam com as milhares de pessoas que se espremem entre os cordões das calçadas. Cachorros latem em volta dos atores e dos fiéis. Janelas se abrem, emoldurando rostos que liberam preces inaudíveis. Crianças correm de um lado para o outro e desafiam os fortes homens que isolam com uma corda os atores durante a caminhada. Os chicotes estalam. Parecem de verdade - às vezes machucam mesmo. Os dois prisioneiros condenados junto com Jesus de Nazaré lançam-se contra o público para abrir caminho. A gurizada desafia, avança, recua".
Perto do final, contei: "Na primeira parada, Cristo encontra sua mãe. Maria (a excelente atriz Lígia Rigo) dá o mais silencioso, o mais doloroso, o mais sofrido e o mais derradeiro beijo em seu filho atraiçoado. A despedida é abortada por um legionário romano que puxa os cabelos de Cristo para recomeçar o calvário. Na segunda parada, Verônica se solidariza com a penúria do Mestre e enxuga com um pano o sangue e o suor que tingem a face do condenado. Sua imagem fica gravada no trapo, e Verônica o sustenta como um estandarte do sofrimento".
Aí finalizei: "No alto do morro, Cristo é crucificado. Neste momento, e durante toda a escalada, as cenas chegam turvas aos olhos emocionados de parte das pessoas que foram testemunhas dos últimos momentos do Redentor. Quando o Nazareno ressurge, foguetes estouram no topo do morro. Moradores libertam pombos no pátio dos seus barracos. Todos aplaudem. O padre brada 'Viva Jesus, vida o povo de Deus, viva o Morro da Cruz". Termina fazendo uma elegia à comunidade do morro, que padece com o estigma da violência, mas é autora de um dos mais belos ritos religiosos e culturais de Porto Alegre".
Depois de reler minha reportagem, fiquei com remorso de não ter acompanhado a Júlia na escalada.
(Obrigado, Carol, por ter localizado o texto no arquivo do jornal.)
Escrito por Cacto às 17h08
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Irritação porto-alegrense
A primeira-dama do município de Porto Alegre cantando "Porto Alegre é demais" nas propagandas da rede Zaffari - que são criadas pela agência de propaganda de um parente dela - durante a semana de comemoração do aniversário da cidade. E não é de agora...
Pode haver algo mais irritante?
Escrito por Cacto às 01h44
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O mundo transmutado em fábula como possibilidade de redenção
Katarina, em seu blog (palestinadoespetaculo.zip.net) e em sua fala fulgurantes, já havia bradado aos espíritos menos incautos: prestem atenção no filme "O labirinto do Fauno" (2006), de Guillermo Del Toro. Com atraso, apenas ontem assisti ao DVD. O filme se passa na Espanha de 1944, quando o ditador Franco já havia vencido os grupos republicanos de esquerda, embora houvesse focos de resistência encrustados nas matas e cavernas. Conforme escreveu Katarina, a Guerra Civil Espanhola foi a última em que as pessoas lutavam não por dinheiro, petróleo ou território, mas por um mundo livre. Se somente esse mote não fosse suficiente para fazer da obra indispensável, há que se dizer que suas qualidades fílmicas são vastas. Fotografia, roteiro, interpretações, música, montagem, direção de arte... O que se vê é uma criação autoral, singular, elaborada, densa, provocativa, tocante, metafórica, alegórica, fantástica. Cada vez mais devemos prestar muita atenção em obras que tenham a chancela de três mexicanos: o diretor deste filme, Alejandro Gonzáles Iñárritu e Alfonso Cuarón (também produtor de "O labirinto...").
Ofélia é uma garota que acompanha a mãe grávida e fragilizada até o interior, onde encontra o padrasto, um capitão fascista. A missão do militar é eliminar o foco de resistência na região. Na casa, encontra apoio e acolhida com a empregada. Acossada pelos fatos e pela indiferença e hostilidade do homem que era forçada a chamar de pai, Ofélia, uma apaixonada por contos de fada, estabelece uma dupla realidade. Ao vasculhar as redondezas, guiada por um tipo de louva-a-deus que se transforma em fada, descobre um antigo labirinto que conduz, através de uma trilha subterrânea, até um velho Fauno. Ele desvela a ancestralidade da garota: uma princesa que desapareceu do Reino das Fadas. E se antes da lua cheia ela executar três tarefas apresentadas pelo ser mitológico, tem a chance de recuperar sua posição e reinar ao lado do pai. Este universo aparece durante todo o filme de maneira paralela e, por vezes, sobreposta à outra realidade em que Ofélia se encontrava, pautada pela brutalidade das ações do capitão - apoiado pelos ricos e pela Igreja - em exterminar os resistentes. A garota era o ponto de convergência entre os dois mundos, e esse jogo, a tensão entre as distintas esferas, se estende até o final, quando o público mais uma vez, uma derradeira vez, se vê confrontado com duas possibilidades, duas noções de real - afinal, real é o que cada um toma por real, né?
Talvez um dos aspectos mais interessantes do filme sejam os mecanismos emocionais, puramente subjetivos que as pessoas precisam urdir para sobreviver à adversidade, ao arbítrio, ao horror, à guerra, à liberdade podada. E se os sujeitos são crianças, o mundo transmuta-se em fábula como possibilidade de redenção, de sublimação.
Katarina disse em seu blog que, tomada por um ímpeto professoral, queria encher um ônibus de alunos e levar todos a assistir ao filme. Na verdade, ela escreveu muito mais: "(...) me deu um certo instinto de professorinha de colégio, a encher um ônibus escolar e levar todos os meus amigos de esquerda, inclusive os que foram torturados pelas ditaduras, para ver, como uma prova de que não devemos tremer por dentro diante da eternidade da forma da verdade, da liberdade e do compromisso". Como a programação dos cinemas hoje é outra, conclamo, inspirado pela Katarina: peguem na locadora, comprem o DVD. Vejam "O labirinto do Fauno" e descubram os descaminhos de Ofélia/da Espanha em busca da liberdade.
Escrito por Cacto às 12h50
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Nem uma legítima ilusão à la Martha salvaria o país invadido
Martha, aquela mesma, em crônica recente escreveu que costumava evocar o Tibete como metáfora para tranqüilidade, absoluta paz, introspecção, suavidade, felicidade plena, compreensão mútua etc., enquanto o Timor Leste representaria o oposto. Ha-ha-ha.
No segundo parágrafo, ela avisa que o pequeno território está no noticiário internacional em razão da ofensiva chinesa que tenta abafar os protestos dos tibetanos contra a invasão iniciada em 1950 pelo país que logo mais vai sediar os Jogos Olímpicos. No terceiro, arrisca: "Quem conhece bem a história tumultuada do Tibete sabe que essa ilusão de ele ser um país transcendental é apenas isso, uma ilusão - mas quem de nós não precisa de uma ilusãozinha de que a paz sobrevive em algum lugar? Quando vi as imagens de monges chutando vidraças e atirando pedras em edifícios públicos, pensei: o mundo acabou mesmo. Monges tomados pela raiva! Revoltados! Agindo como estudantes da UNE em 1968! Como dói o desfacelamento de um estereótipo.".
Se ela tenta sugerir que sabia, de fato, o que se passava no Tibete, como manter uma ilusão, um estereótipo em relação a algo tão delicado quanto a invasão de um país por outro, quanto a aniquilação de uma cultura, quanto o silenciamento de um povo na marra, no cacete? A situação é tão delicada, Martha, que os últimos jornalistas estrangeiros que ainda trabalhavam na região foram expulsos do Tibete para que o mundo não saiba o que se passa lá. Milhares de chineses armados se dirigiram ao local para conter os protestos, que brotaram em diversos pontos além de Lhasa, a capital. E a ONU, esta organização tantas vezes protagonista de atitudes risíveis e inócuas, como se estivesse comandada por titereiros transnacionais, não vai conseguir quase nada, pra não dizer nada, pois a China é membro permanente do seu Conselho de Segurança, o que lhe garante veto. Ou seja, nenhuma resolução condenando a repressão chinesa aos protestos tem chances de aprovação. E como o potencial lucrativo oriundo dos 1,3 bilhão de consumidores chineses vale mais do que a agonia dos pouco mais de 1 milhão de tibetanos budistas, qual país está a fim de se indispor contra a economia que mais cresce no mundo? Neste caso, nem uma legítima ilusão à la Martha salvaria o país invadido.
Escrito por Cacto às 18h46
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Um jornalismo insubordinado aos manuais de instruções
Não quero diminuir o espaço ou a importância do jornalismo praticado conforme modelos tradicionais, embora o empobrecimento dos textos, o nível raso das apurações e a incipiência das pautas sejam mais perceptíveis em redações com experiências mais canônicas, principalmente nas de grande porte. Feita a salvaguarda ao lead, à pirâmide invertida e quejandos, quero enaltecer as múltiplas possibilidades de um jornalismo insubordinado aos manuais de instruções.
Nas várias disciplinas que ministro na universidade, preciso ensinar desde os rudimentos da forma mais elementar de notícia até experiências narrativas mais elaboradas. Na segunda possibilidade, busca-se um olhar menos padronizado e engessado desde a formulação da pauta, a maneira como se lê o mundo e se recorta a realidade, passando por um exercício de reportagem, uma apuração mais atenta, sensível, aprofundada e sem pressa, até chegar a uma escrita que dimensione e contextualize os fatos na grandeza que eles têm e merecem e que também busque nas palavras a amplitude de recursos permitidos pelo idioma. Sem escorregar para pieguices e maneirismos.
Nos últimos semestres, busco sensibilizar os alunos para estas questões, principalmente com a criação, na faculdade onde leciono, de uma disciplina específica para se discutir e praticar jornalismo literário. Tento provocá-los, instigá-los, entusiasmá-los para a diversidade das possibilidades do jornalismo. Fugir da obviedade e da mesmice tão perceptíveis nas pautas. Respeitar as pessoas e a real dimensão dos acontecimentos. Agir sem intolerância e preconceito para com o outro, o diferente, o menor. Tratar o texto não como um formulário, mas como a cartografia de uma vida, de um fato, de um fenômeno, de um pensamento, de uma tendência, de uma lembrança. Às vezes fico em dúvida no acerto das opções que faço, no alcance das aulas e das provocações... mas se tivesse certeza as coisas estariam perdidas.
Ontem, discutindo as pautas da revista feita pelos alunos do 7º semestre, falava da diversidade de maneiras de se contar uma história e lá pelas tantas senti necessidade de prolongar a discussão por outras veredas. O que distingue o jornalismo da literatura? O que faz um texto ser reportagem? A ética! Mais do que formato e suporte, o que distingue o jornalism | |